Artigos do Professor Luciano Pasoti


E aí, curtiu?

Tínhamos menos que uma dúzia de anos e lá estávamos nós, brincando, daquilo que toda criança sonhava: ser adulto! A sala da casa da minha amiga - que naqueles idos parecia um salão gigantesco do tamanho da nossa imaginação – rapidamente se transformava de agência bancária a sala de aula, de restaurante a centro médico e eu, como num passe de mágica, de gerente a professor, de cozinheiro a cirurgião. Cada dia era uma brincadeira diferente e cada dia era a mesma brincadeira novamente.
Mas teve um dia que nunca me saiu da memória. Ao me preparar para encerrar o expediente de um de nossos estabelecimentos fantásticos, daquele mais um dia de exaustiva brincadeira, vi minha amiga tomada por um susto avassalador, ao perceber que em minhas mãos estava um livrinho, cuja diferença de um caderninho vagabundo qualquer, era ter uma espécie rudimentar de fechadura. Nem tempo deu para que eu corresse os olhos sobre os escritos tamanha foi a variação de cores no rosto da menina, que passava rápida e alternadamente da palidez do susto para a vermelhidão da vergonha...
Seguiu-se, logo em seguida, um grito: “ – Não mexa em meu diário!”. Juro que a única palavra que consegui ler, antes da proibição, foi “amor”. Mas o episódio foi suficientemente assustador para eu saber que não é só a puberdade que, fisicamente, marca a nossa passagem da infância para a vida adulta. A percepção dos sentimentos e dos prazeres também é um marco ainda mais interessante e confiável. Bolas e bonecas perdem então o seu encanto e vão para um outro canto, esquecido da vida.
Até pouco tempo atrás muitas pessoas tinham esse hábito: escrever seus “diários”, guardados a sete chaves, nos quais confiavam seus sentimentos e se permitiam trancafiar também seus segredos, dos medos aos amores, com requintes de lembranças, de papel de bala a bilhetes amorosos, nada muito sofisticado, mas bem tátil e significativo.
O problema é que atualmente, como sinal dos tempos, ocorre justamente o inverso. Com a praga das redes sociais, as pessoas adultas de hoje não são tão astutas quanto eram as crianças de minha infância querida. Tudo vai parar no “facebook” e parece haver uma cruel necessidade, ou carência, até mesmo doentia ansiedade, por “curtidas”. Já vi gente comemorar o número de “curtidas” como se fossem aplausos recebidos pelo ator na ribalta. No facebook somos todos um pouco atores de nossas próprias histórias, fantasiadas. E a “selfie” parece ser um troféu da solidão!
Vale de tudo. Tem gente que encontrou nele o seu terapeuta, contando todos os seus problemas, raivas e decepções. Outros parecem ser dele tão subservientes a ponto de contar cada passo de sua vida, no famigerado “partiu para....”. E, narcisismos e exibicionismos a parte, também existe aquela avalanche de fotos de pratos de comida e exposição da intimidade de suas coisas, casas, hábitos, poses e posses.
Ainda tem coisa pior. Banalizaram a amizade. Basta um “convite”enviado para um desconhecido ou esquecido e aí vem mensagem dizendo: “Agora vocês são amigos!”. Ora, ora, ora. Sou do tempo em que o número de amigos se contava nos dedos, o resto eram “colegas”. Hoje o cidadão tem milhares de “amigos” e logo os chamam de “face-amores”. É mole?
A exposição maior nem é das imagens e sim da capacidade e da ideologia das pessoas quando resolvem “escrever” os seus “posts”. É que não desvendam apenas o seu português sofrível ao mundo, mas também suas formas mesquinhas e fúteis de pensar ou viver a vida. É o diário escancarado da vida moderna! Faz concordar em parte com o que disse o recém falecido Humberto Eco, crítico do papel das novas tecnologias no processo de disseminação de informação, ao afirmar que as redes sociais deram o direito à palavra a uma "legião de imbecis" que antes falavam apenas "em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade".
Sem tanto radicalismo, vez que não pode generalizar, porque muitos escrevem com genialidade em qualquer meio ou mídia, mas é mais ou menos assim mesmo. É que a escrita deve ser usada pelo escritor da mesma forma que o cirurgião usa o bisturi, com segurança e habilidade para não ferir ou mutilar alguém. E tem gente usando como o lenhador faz com o machado, lamentavelmente.
Está faltando apenas “socialidade” nas redes sociais. Agora entendo porquê, ao contrário das crianças que sonham em ser adultas, o sonho dos adultos é voltar a ser criança. É triste perder a ingenuidade. O meu diário está na minha alma e prefiro muito mais o factível ao virtual



Escrito por Luciano às 13h27
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“Simples, assim”.

 

Não estranhem, amigos leitores do “JOP”. Cheguei por aqui para olhar pela janela! As notícias andavam muito lúdicas “por aí”... E sempre preferi os tons da realidade, embora hoje cinzentos, ao colorido artificial e inebriante das conveniências que nos ocultam as mazelas. Impossível conviver, calado, com as mesmas páginas que estampam que o carnaval foi um sucesso “arrebatador de público”, um “espetáculo de luxo e alegria” e silenciar, omisso, diante da pobreza e o lixo da tristeza, da crise financeira, da desonestidade endêmica, da falta de empregos e da precariedade na saúde, generalizadas pelo país. A cortina da janela não muda a paisagem lá de fora, apenas a esconde. Há uma crise moral e ética que nos impõe reagir democraticamente e mudar o cenário sombrio que tende a persistir ou piorar.   

Jornal não é lugar para esconder a realidade. As notícias devem ser noticiadas, a base dos fatos, e a repercussão crítica deve ser democrática a ponto de permitir ao leitor, inteligente, que forme a sua convicção.

Quando encostamos a barriga no balcão de uma padaria e pedimos pão, esperamos que nos seja servido pão. Se algo diferente vier dentro do saco que não seja pão, é porque não lhe entregaram pão. Você é livre para aceitar ou não, se contentar ou não, reagir ou não. A isso se chama liberdade de pensamento e exercício crítico da razão. Pensar é preciso. Olhar a paisagem através da janela, além da cortina.

Aliás, a liberdade é alcançada justamente no momento em que não se necessita mais impressionar ninguém, agir por qualquer motivo ou interesse. É um prazer pensar e exercer, com dignidade e respeito, a liberdade de expressão.

E para inaugurar esse nosso espaço no JOP, nada de extravagante. Pelo contrário, em tempos tão difíceis, o desafio maior para a inteligência é ser simples. Quanto mais simples, mais real, sem cortinas!  

É que hoje em dia andam complicando (ou fantasiando) demais as coisas! Particularmente, penso que quando existe muito discurso ou muitas explicações, teorias, prazos e promessas, estatísticas, números e fotos, é que não existe “pão dentro do saco” e o circo é necessário para trair a sua atenção. Costuma-se, sem firulas, também chamar isso de “enganação”. O dinheiro público é nosso e não existe presente ou favor político. Uma boa administração é um dever dos políticos e um direito do povo!

Entrementes, o momento político é bem fecundo para essas cortinas.

Tem-se até a impressão de que o pobre cidadão tem que se formar em ciências políticas para eleger um outro cidadão. Nada disso. Basta uma análise bem simples, olhando pela janela, a realidade que se descortina lá fora.

Não há necessidade de se aprofundar, mergulhando numa das trincheiras de um patético maniqueísmo criado “politiqueiramente” e que chama os descontentes de “negativistas” e os satisfeitos de “amantes” da cidade, como se estivessem na batalha do bem contra o mau.  Ora, há festas e velórios na vida pública também. Não se pode julgar um mandato inteiro apenas por fatos isolados, pela reforma da praça, pelas árvores arrancadas ou plantadas, por esta ou aquela obra construída ou desconstruída, essa ou aquela atitude. Deve-se julgar o trabalho como um todo, aquilo que foi bom e ruim, durante todo o mandato e não cair na cilada da memória curta, afetiva. E sobre reeleição, o eleitor deve apenas refletir: gostei ou não de tudo o que ocorreu no último mandato? A cidade melhorou ou não de acordo com o que eu esperava? E aí sim, fazer um juízo de continuidade ou mudança, pelo voto. Abrir as cortinas da democracia!

Algo mais complexo que isso é encher o seu saco de circo, olvidando-se do pão. Bem simples, assim.

 

 

LUCIANO PASOTI MONFARDINI, advogado, professor, mestre e doutorando em direito.



Escrito por Luciano às 10h42
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“Malandro é malandro”

 

E mané é mané. Escrevendo ao som de músicas que parecem perfeitas para embalar o nosso momento político. É que eu estava à toa na vida –política- e o meu povo me chamou “pra ver a banda passar”, mas não vi nem o mesmo banco, sequer a mesma praça e tampouco no mesmo jardim. De fato, querido leitor do JOP*, “camarão que dorme a onda leva”!

O problema é que quando estamos carentes de cultura, também ficamos à mingua de pessoas cultas. “Foi por isso que o barraco desabou, nessa que o nosso barco se perdeu”.

Assim, ainda que exista inteligência, se o cidadão pensante for desprovido de cultura, será tão útil quanto uma bicicleta é para um peixe. Inútil, sem cultura, “a gente somos inútil”! (sic)

E a tragédia se torna mais ruinosa quando existe imoralidade e falta ética justamente para aqueles que ainda pensam ardilosamente.

Quando todas essas convergências afetam justamente aos que ocupam o topo da pirâmide política, o efeito para os demais é catastrófico: alienação e manipulação, com o surgimento das chamadas “massas de manobra”. E aí, “é duro ter que caminhar”.

Viver na ignorância é muito perigoso. Obriga as pessoas a acreditarem, cegamente, naquilo que dizem ser verdadeiro. “Viver é bom, mas é preciso cuidado”.

Criamos uma geração inteira de jovens acomodados, acovardados e alienados. Os mais audaciosos, quando muito, usam as redes sociais apenas para exprimir, num português ruim e abreviado, aquilo que devia ser manifestado aos brados nas ruas ou depositado nas urnas. Geração alimentada no toddy, comedora de hambúrguer e que soltava pipa no ventilador ou jogava bolinha de gude no tapete da casa da vovó, que ouvia “funk” ou assistia enlatados americanos, sequer conhece a receita e a potencialidade de uma necessária revolução. A literatura que consomem e fabricam é aquela faz-me-rir das redes sociais, que desnuda ao mundo um sem número de imbecilidades e o culto ao supérfluo. E mesmo aqueles que tem um poder aquisitivo melhor, criaram uma casta de egoístas e consumistas. É que não lhes ensinam história, filosofia e direito, o alicerce da formação de verdadeiros cidadãos. Mas “ainda há tempo para recomeçar”.

Consequência disso tudo é o não surgimento de novos e jovens líderes políticos. Se já são raros os craques no futebol brasileiro, na política então novos líderes são espécies extintas e só a memória longa faz lembrar de grandes homens públicos. Ai que saudade de Ulysses!

Resultado disso é o surgimento de personalidades políticas “medíocres”, no sentido mais casto da palavra, que mais se destacam por suas trapalhadas ou por seus discursos caricatos e demagógicos.   

Naturalmente que existem exceções, pois a generalização é tão burra quanto a unanimidade, mas os políticos éticos acabam aprisionados em suas próprias moralidades. E os desonestos têm a arma poderosa da malandragem para sua perpetuação no poder.

Parece um paradoxo, mas querendo ou não, Jorge Bem, muito antes de ser Jor, cantou o que poderia ser filosofia valiosa em tempos tão carentes de racionalidade: “E como já dizia Galileu na Galiléia, malandro que é malandro não bobeia. Se o malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem”. Caramba!

Ando procurando novos líderes políticos, mas só tenho tido esperança mesmo nas novas pessoas que já vivenciaram bastante, na vida privada, e que levantaram, sacudiram a poeira e deram a volta por cima, em suas vidas empresariais. Oxalá venham fazer uma nova política porque os atuais políticos já estão fazendo a velha política, manjadíssima, faz tempo.    

Se liga malandro... Pois se começamos a coluna com a modernidade do Jorge Ben Jor, teremos que encerrar com a sabedoria do Bezerra da Silva, em “Malandragem Dá Um Tempo”:  “Se segura malandro, pra fazer a cabeça tem hora ... Vou apertar, mas não vou acender agora”.  

 

*JORNAL O PINHALENSE – hebdomadário de Espírito Santo do Pinhal, SP.

 

LUCIANO PASOTI, advogado, professor, mestre e doutorando em direito.



Escrito por Luciano às 10h41
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