Artigos do Professor Luciano Pasoti


“Simples, assim”.

 

Não estranhem, amigos leitores do “JOP”. Cheguei por aqui para olhar pela janela! As notícias andavam muito lúdicas “por aí”... E sempre preferi os tons da realidade, embora hoje cinzentos, ao colorido artificial e inebriante das conveniências que nos ocultam as mazelas. Impossível conviver, calado, com as mesmas páginas que estampam que o carnaval foi um sucesso “arrebatador de público”, um “espetáculo de luxo e alegria” e silenciar, omisso, diante da pobreza e o lixo da tristeza, da crise financeira, da desonestidade endêmica, da falta de empregos e da precariedade na saúde, generalizadas pelo país. A cortina da janela não muda a paisagem lá de fora, apenas a esconde. Há uma crise moral e ética que nos impõe reagir democraticamente e mudar o cenário sombrio que tende a persistir ou piorar.   

Jornal não é lugar para esconder a realidade. As notícias devem ser noticiadas, a base dos fatos, e a repercussão crítica deve ser democrática a ponto de permitir ao leitor, inteligente, que forme a sua convicção.

Quando encostamos a barriga no balcão de uma padaria e pedimos pão, esperamos que nos seja servido pão. Se algo diferente vier dentro do saco que não seja pão, é porque não lhe entregaram pão. Você é livre para aceitar ou não, se contentar ou não, reagir ou não. A isso se chama liberdade de pensamento e exercício crítico da razão. Pensar é preciso. Olhar a paisagem através da janela, além da cortina.

Aliás, a liberdade é alcançada justamente no momento em que não se necessita mais impressionar ninguém, agir por qualquer motivo ou interesse. É um prazer pensar e exercer, com dignidade e respeito, a liberdade de expressão.

E para inaugurar esse nosso espaço no JOP, nada de extravagante. Pelo contrário, em tempos tão difíceis, o desafio maior para a inteligência é ser simples. Quanto mais simples, mais real, sem cortinas!  

É que hoje em dia andam complicando (ou fantasiando) demais as coisas! Particularmente, penso que quando existe muito discurso ou muitas explicações, teorias, prazos e promessas, estatísticas, números e fotos, é que não existe “pão dentro do saco” e o circo é necessário para trair a sua atenção. Costuma-se, sem firulas, também chamar isso de “enganação”. O dinheiro público é nosso e não existe presente ou favor político. Uma boa administração é um dever dos políticos e um direito do povo!

Entrementes, o momento político é bem fecundo para essas cortinas.

Tem-se até a impressão de que o pobre cidadão tem que se formar em ciências políticas para eleger um outro cidadão. Nada disso. Basta uma análise bem simples, olhando pela janela, a realidade que se descortina lá fora.

Não há necessidade de se aprofundar, mergulhando numa das trincheiras de um patético maniqueísmo criado “politiqueiramente” e que chama os descontentes de “negativistas” e os satisfeitos de “amantes” da cidade, como se estivessem na batalha do bem contra o mau.  Ora, há festas e velórios na vida pública também. Não se pode julgar um mandato inteiro apenas por fatos isolados, pela reforma da praça, pelas árvores arrancadas ou plantadas, por esta ou aquela obra construída ou desconstruída, essa ou aquela atitude. Deve-se julgar o trabalho como um todo, aquilo que foi bom e ruim, durante todo o mandato e não cair na cilada da memória curta, afetiva. E sobre reeleição, o eleitor deve apenas refletir: gostei ou não de tudo o que ocorreu no último mandato? A cidade melhorou ou não de acordo com o que eu esperava? E aí sim, fazer um juízo de continuidade ou mudança, pelo voto. Abrir as cortinas da democracia!

Algo mais complexo que isso é encher o seu saco de circo, olvidando-se do pão. Bem simples, assim.

 

 

LUCIANO PASOTI MONFARDINI, advogado, professor, mestre e doutorando em direito.



Escrito por Luciano às 10h42
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“Malandro é malandro”

 

E mané é mané. Escrevendo ao som de músicas que parecem perfeitas para embalar o nosso momento político. É que eu estava à toa na vida –política- e o meu povo me chamou “pra ver a banda passar”, mas não vi nem o mesmo banco, sequer a mesma praça e tampouco no mesmo jardim. De fato, querido leitor do JOP*, “camarão que dorme a onda leva”!

O problema é que quando estamos carentes de cultura, também ficamos à mingua de pessoas cultas. “Foi por isso que o barraco desabou, nessa que o nosso barco se perdeu”.

Assim, ainda que exista inteligência, se o cidadão pensante for desprovido de cultura, será tão útil quanto uma bicicleta é para um peixe. Inútil, sem cultura, “a gente somos inútil”! (sic)

E a tragédia se torna mais ruinosa quando existe imoralidade e falta ética justamente para aqueles que ainda pensam ardilosamente.

Quando todas essas convergências afetam justamente aos que ocupam o topo da pirâmide política, o efeito para os demais é catastrófico: alienação e manipulação, com o surgimento das chamadas “massas de manobra”. E aí, “é duro ter que caminhar”.

Viver na ignorância é muito perigoso. Obriga as pessoas a acreditarem, cegamente, naquilo que dizem ser verdadeiro. “Viver é bom, mas é preciso cuidado”.

Criamos uma geração inteira de jovens acomodados, acovardados e alienados. Os mais audaciosos, quando muito, usam as redes sociais apenas para exprimir, num português ruim e abreviado, aquilo que devia ser manifestado aos brados nas ruas ou depositado nas urnas. Geração alimentada no toddy, comedora de hambúrguer e que soltava pipa no ventilador ou jogava bolinha de gude no tapete da casa da vovó, que ouvia “funk” ou assistia enlatados americanos, sequer conhece a receita e a potencialidade de uma necessária revolução. A literatura que consomem e fabricam é aquela faz-me-rir das redes sociais, que desnuda ao mundo um sem número de imbecilidades e o culto ao supérfluo. E mesmo aqueles que tem um poder aquisitivo melhor, criaram uma casta de egoístas e consumistas. É que não lhes ensinam história, filosofia e direito, o alicerce da formação de verdadeiros cidadãos. Mas “ainda há tempo para recomeçar”.

Consequência disso tudo é o não surgimento de novos e jovens líderes políticos. Se já são raros os craques no futebol brasileiro, na política então novos líderes são espécies extintas e só a memória longa faz lembrar de grandes homens públicos. Ai que saudade de Ulysses!

Resultado disso é o surgimento de personalidades políticas “medíocres”, no sentido mais casto da palavra, que mais se destacam por suas trapalhadas ou por seus discursos caricatos e demagógicos.   

Naturalmente que existem exceções, pois a generalização é tão burra quanto a unanimidade, mas os políticos éticos acabam aprisionados em suas próprias moralidades. E os desonestos têm a arma poderosa da malandragem para sua perpetuação no poder.

Parece um paradoxo, mas querendo ou não, Jorge Bem, muito antes de ser Jor, cantou o que poderia ser filosofia valiosa em tempos tão carentes de racionalidade: “E como já dizia Galileu na Galiléia, malandro que é malandro não bobeia. Se o malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem”. Caramba!

Ando procurando novos líderes políticos, mas só tenho tido esperança mesmo nas novas pessoas que já vivenciaram bastante, na vida privada, e que levantaram, sacudiram a poeira e deram a volta por cima, em suas vidas empresariais. Oxalá venham fazer uma nova política porque os atuais políticos já estão fazendo a velha política, manjadíssima, faz tempo.    

Se liga malandro... Pois se começamos a coluna com a modernidade do Jorge Ben Jor, teremos que encerrar com a sabedoria do Bezerra da Silva, em “Malandragem Dá Um Tempo”:  “Se segura malandro, pra fazer a cabeça tem hora ... Vou apertar, mas não vou acender agora”.  

 

*JORNAL O PINHALENSE – hebdomadário de Espírito Santo do Pinhal, SP.

 

LUCIANO PASOTI, advogado, professor, mestre e doutorando em direito.



Escrito por Luciano às 10h41
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